«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EGITO: os cristãos pagam o preço pela revolta

Giorgio Bernardelli
Vatican Insider
14-08-2013


Dezenas de ataques em todo o país, com igrejas incendiadas e ataques com molotov. Não apenas a Igreja copta, mas também as demais confissões cristãs sofrem a ira dos islamistas.

De Sohag, no Alto Egito, a Alarixe, no Sinai; de Suez e Luxor até Mynia: as notícias de igrejas incendiadas ou ataques a propriedades coptas chegam de todo o país. Embora no Cairo, hoje, tenha sido um dia de morte, durante o ataque do exército contra a manifestação da Irmandade Muçulmana, foi também um dia sombrio para os cristãos, com ataques em todo o território, por parte dos islamistas, como represália pelo banho de sangue que ocorreu, durante a madrugada, nas praças de Rabaa e Nahda.

Desde as primeiras horas do dia, quando ainda se estava verificando o que aconteceu no Cairo, no Twitter começaram a circular as imagens da igreja de São Jorge, a principal igreja dos coptas na cidade de Sohag, consumida pelas chamas. O dia avançava e começou a se irromper a dúvida sobre o incidente isolado. O principal objetivo dos islamistas que protestam em todo o país contra a incursão dos militares no Cairo são as igrejas e as propriedades dos cristãos. Reação tragicamente anunciada, posto que, há mais de um mês, as emissoras da Irmandade Muçulmana repetem que o golpe é fruto de um complô orquestrado pelos coptas.
Tawadros II - Papa dos Coptas (Egito)

O objetivo principal é o papa dos coptas Tawadros II, pois apoiou o golpe dos militares após as manifestações anti-Morsi, do dia 30 de junho passado (ao lado do Grande Imã de al-Azhar, o maior centro de estudos sunita). Nas últimas horas, de nada serviu a posição de Tawadros, que fez um convite a toda a população “para preservar a vida dos egípcios, prestando atenção na prevenção da violência e ataques perigosos contra qualquer local ou pessoa”. Não o escutou nem o exército, nem a Irmandade Muçulmana, como se está confirmando.

Assim, os coptas estão novamente vivendo horas terríveis. Praticamente é impossível traçar uma lista completa da violência que se desencadeou contra as igrejas. Fala-se de dezenas de ataques. Entre os episódios mais graves está o incêndio da Igreja São Teodoro, em Mynia, mas também foi alvo da ira fundamentalistas a igreja de Alarixe, na qual o padre Mina Abdul, o sacerdote copta assassinado há um mês, desempenhava seu ministério. Também há casos em Faium, onde parece ser que uma multidão destruiu as cruzes da Igreja da Virgem ao grito de “Allahu Akbar”, além de alguns negócios que vendem Bíblias no Cairo. A violência não apenas está atingindo a Igreja Ortodoxa Copta, mas indiscriminadamente todas as confissões cristãs. Em Suez, atacaram a paróquia católica e a escola franciscana do local. O Patriarca copta-católico, Ibrahim Sidrak, decidiu cancelar todas as missas da solenidade da Assunção, temendo maiores violências. O primaz anglicano Justin Welby, de Canterbury, pediu orações pelo Egito e se referiu ao ataque da St. Saviour Church, de Suez.

“Também nós, os católicos, como os coptas e protestantes, preferimos manter fechadas as igrejas e os lugares de culto para evitar incidentes”, disse o padre Paul Annis, superior da Congregação dos Combonianos, no Cairo, à agência Misna. “Amanhã, se a situação permitir, voltaremos a abrir as igrejas – concluiu o padre Annis – para festejar a Assunção de Maria. Porém, tudo continua a ser visto, e do amanhã nos separa uma longa noite”. O sítio “BlogCopte” também fala de uma Igreja greco-ortodoxa atingida no Cairo.

São muitíssimos episódios e não se sabe qual foi o saldo. A única coisa certa é o temor dos cristãos. Todos estes fatos aparecem poucos dias depois da denúncia feita por 16 associações de direitos humanos, acusando o novo regime egípcio de não ter feito o suficiente para reprimir a onda de ódio contra os cristãos, desencadeada a partir do golpe. Os militares, com a incursão de hoje, não souberam reprimir a reação violenta e amplamente anunciada. No Egito, mais uma vez os cristãos estão pagando um preço muito caro pela situação dramática do país.

Tradução do espanhol pelo Cepat.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sexta-feira, 16 de agosto de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/522801-egito-os-cristaos-pagam-o-preco-pela-revolta
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OS FRACASSOS EGÍPCIOS

Daniel Williams*
The Washington Post

Egito não conseguiu levar a sério os direitos humanos
Protestos de rua no Cairo - Egito

Após a derrubada de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011, eu às vezes me perguntava como seriam as coisas se os generais tivessem tentado defender seu regime de 30 anos. Agora eu sei.

O Cairo é uma cidade sob a mira de armas militares. Soldados ocupam postos de controle espalhados pelas vias principais. Viaturas policiais e esquadrões da tropa de choque se escondem em ruas secundárias.

Partidários da nova ordem correm desenfreadamente em grupos organizados - se assim podem ser chamados - aparentemente sob o comando de adolescentes que parecem ter um apreço exagerado por espadas. A televisão estatal apresenta repetições incessantes de vídeos patrióticos exibindo o hino nacional e garotos pré-adolescentes imberbes espairecendo em ruas curiosamente limpas, uma raridade no Cairo.

Em 2011, o Exército estava presumivelmente tentando evitar essa violência quando os generais decidiram não atacar as dezenas de milhares de manifestantes na Praça Tahrir e preferiram depor Mubarak e estabelecer uma transição democrática.

O que mudou? Os ressentimentos e temores acumulados de muitos egípcios com o governo da Irmandade Muçulmana. Outro elemento pode ter sido a ambição dos generais militares. Uma coisa está clara: o Egito não conseguiu levar os direitos humanos a sério.

Após a queda de Mubarak, o Exército governou de fevereiro de 2011 a junho de 2012, supostamente para fazer uma mediação. Não demorou para aflorarem abusos, a maioria como ecos do passado de Mubarak: julgamento militar de civis, repressão à liberdade de expressão, tortura, ataques letais a civis que protestavam contra o regime militar.

Mohamed Morsi, o candidato do Partido Justiça e Liberdade, da Irmandade Muçulmana, venceu as eleições presidenciais do Egito e assumiu a presidência em junho de 2012. Os abusos de direitos humanos continuaram: processos judiciais de jornalistas; envio de gangues pró-Irmandade contra manifestantes; e novas leis que permitiam a detenção sem autorização judicial por até 30 dias. Ainda no ano passado, Morsi tratou de tornar seus decretos isentos de revisão legal. Se eles violassem direitos humanos, as vítimas não teriam meios de questionar a lei.
O interior danificado da Igreja de São Moussa, um dia depois de ter sido incendiada
na violência sectária por partidários do deposto presidente islamita Mohammed Mursi,
em Minya, sul do Cairo, no Egito

Quinta-feira, 15 de  agosto de 2013
(Foto: Associated Press)

Líderes da Irmandade culparam cristãos tanto pela deposição de Morsi como pela violência atual e isso instigou multidões pró-Irmandade a atacar cristãos e queimar suas igrejas em várias cidades pequenas e grandes. O comandante das Forças Armadas do Egito, general Abdel Fattah al-Sisi, depôs Morsi em 3 de julho após manifestações enormes contra o presidente alguns dias antes. O golpe reviveu o autodeclarado papel do Exército de salvador do país.

O passado infeliz do Egito parece ser um prólogo inescapável. Em 1952, um Egito imerso no caos instigou o Exército a derrubar um rei impopular e colocar a nação num caminho para algo melhor. Esse "melhor" se traduziu em mais de 60 anos de regime militar com persistentes abusos. É difícil não ver a sublevação atual levando o país para o mesmo caminho.

Grupos de defesa dos direitos humanos farão apelos para os governantes do país protegerem a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e condenarem o uso de prisões arbitrárias e matanças injustificadas. Mas a quem esses apelos poderão ser dirigidos quando os direitos humanos degeneraram nos últimos dois anos em meio a uma espécie de conveniência situacional - útil quando você e seus aliados são as vítimas de matanças, espancamentos e gás lacrimogêneo, mas ignorados quando seus inimigos políticos suportam o fardo dos abusos.

Por um ano e meio, manifestantes na Praça Tahrir pediram o fim do regime militar e sofreram espancamentos, prisões arbitrárias e tortura. Agora muitos elogiam a feroz repressão policial aos seguidores da Irmandade. Curiosamente, num país tão antigo como o Egito, a memória parece muito curta.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

* DANIEL WILLIAMS é pesquisador sênior na Human Rights Watch.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Internacional/Visão Global - Sábado, 17 de agosto de 2013 - Pg. A11 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-fracassos--egipcios-,1064892,0.htm

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